A Pesquisa Cênica da Cia. Teatro de Garagem

O processo de trabalho e de pesquisa cênica, desenvolvido pela Cia. Teatro de Garagem, não se pauta em um sistema fechado, ou fixo. Trata-se, antes, de uma busca constante de possibilidades cênicas a serem descobertas. A opção do grupo em gerir-se coletivamente, sem hierarquias, propõe um trabalho que se aproveita, também, da diversidade de bagagens dos atores, desenvolvendo-se paralelamente a um processo continuado de experimentações da Cia. desde o seu nascimento. Baseando-se no intercâmbio de experiências, o viés multiplicador da criação coletiva dialoga com a introdução à linguagem teatral e vivências da Cia., transmitidas através dos cursos que integram o projeto pedagógico do Garagem.

A mais importante influência, talvez, seja a do teatro de rua e a busca por espaços alternativos para o fazer teatral, inclusive agregando elementos do teatro épico para as peças, o que ressalta uma visão estética-política da arte bem demarcada. Espera-se através de nossas montagens teatrais gerar maior proximidade entre os atores e o público, para assim disseminar ideias, provocar reflexões, ou sensações que sejam transformadoras. Começamos, dessa forma, por um contato literalmente mais direto entre os fazedores e os espectadores das peças.

Certas pesquisas de ordem estética, agregadas às experiências do grupo, foram propostas, de maneira específica, para processos nos quais a Cia. Teatro de Garagem decidiu concentrar esforços, caso de projetos como a montagem de “Bendita Geni” (2008), quando o grupo desenvolveu e aprofundou seu contato com Bertolt Brecht e o Teatro Épico, e também com a cultura popular; ou das reflexões provocadas no estudo de Antonin Artaud e Brecht, proposto em “De volta à plateia” (2009). Trata-se, ainda assim, de elementos que uma vez absorvidos repercutem nas montagens seguintes, mas que já eram utilizados e pesquisados, sem este direcionamento específico.

Em síntese, o espírito inquieto da Cia. Teatro de Garagem, que busca respostas tanto quanto busca formas de elaborar e expor suas perguntas, faz com que não se filie a nenhuma tradição teatral, mas a várias possibilidades de utilização de seus elementos e ideias. Tal qual pregava um certo personagem “Diretor”, de Pirandello, em “Seis Personagens à procura de um autor”: “Não importa! Não importa. Por enquanto é como o primeiro esboço. Tudo serve, para que eu colha, mesmo assim, confusamente, os vários elementos”.