A Cia. Teatro de Garagem surgiu, como o próprio nome já sugere, num espaço alternativo, longe das grandes casas de espetáculo, fora do “palco alto” e do sistema tradicional de cadeiras bem ordenadas do edifício teatral. A garagem de uma casa foi a primeira sala de ensaio e também palco da apresentação da peça “Bilhete premiado” com a qual o grupo inicia sua trajetória em 2006.

Desde o início a cia. já explora a proposta de ocupar os espaços onde o teatro pode acontecer, caracterizando assim não só um posicionamento crítico no campo das produções artísticas enamoradas aos ditames de mercado, mas também sua teimosia em defender uma ação teatral feito por desejantes com as condições disponíveis. Num bom português, a Cia. Teatro de Garagem sempre se virou, e a precariedade com que se deparou no caminho, no fundo, serviu de matéria criativa para uma linguagem e uma estética teatral própria. A improvisação, elemento base de criação do ator também se impunha delicadamente na criação dos elementos cênicos, da iluminação, do cenário, dos figurinos e adereços de cena.

A ocupação de espaços alternativos influenciaram a experimentação em cena de barracões e casas não convencionais de teatro, oferecendo ao público uma proximidade provocativa e provocadora de sensações, idéias e reflexões próprias desse modo de relação. O aprofundamento dessa pesquisa levou a Cia. a encontrar na rua um espaço a ser ocupado, a partir de 2008 com a peça “Bendita Geni”, e que hoje remonta a um dos eixos do trabalho do Garagem: o teatro de rua.

O Curso Livre Teatro de Garagem, oferecido desde 2006, tem servido de espaço para experimentação teatral e contribuído na descoberta de linguagens. Esse processo tem especial importância pelo seu caráter agregador, pois trouxe novos integrantes à Cia. cada um com diferentes contribuições de vida, e também teóricas, cada um vindo de uma formação acadêmica e profissional diferente. Essa característica, sem dúvida, criou condições para o exercício dos processos coletivos de criação e direção, outro elemento essencial do trabalho do grupo que, de diferentes maneiras, tem caracterizado suas montagens.

A trajetória do Garagem inspirada pela inquietação em responder “qual teatro queremos?” tem motivado os atores da Cia. a continuar experimentando esse fazer artístico que prima pelo contato humano, olho a olho. Ainda há muito o que descobrir. Nas palavras de um desvairado Dom Quixote recriado pela Cia: “Eis uma aventura errante, e alegre, e triste, e cheia de boniteza. Se o destino é incerto, a viagem pode ser boa. Pois o que querem muitos por destino, temos por caminho.”